Técnicas de gerenciamento humano são eficientes na medida em que nossos interlocutores ignoram que elas são o que são: técnicas. Quando os subordinados desconfiam que o superior está aplicando receitas de um livro ou seminário sobrevém a sensação de manipulação, falta de sinceridade e de transparência.
É difícil discordar, mesmo porque os relacionamentos humanos pautados em técnicas de comunicação, valorização, motivação, negociação, feedback, etc., enfraquecem no lugar de fortalecer o próprio relacionamento HUMANO.
Imaginem alguém se vangloriando de ser especialista em motivar terceiros, em amizade, empatia ou em influenciar a equipe. A idéia lhe parece simpática? É bem diferente quando essas coisas são feitas espontânea e naturalmente em função das atitudes e condutas do gerente.
Quando a técnica se sobrepõe à vocação, o subordinado, diante de um elogio, em vez de relaxar e usufruir, sente uma leve tensão, pois logo pensa que ato contínuo vem uma bomba que é, para todos os efeitos, a verdadeira razão da conversa. Aliás, só se tranqüiliza quando ouve a bronca que lhe assegura que suas teorias sobre os macetes gerenciais são legitimas: - “Esse sim, é o meu chefe.”
A questão é que uma técnica que simule um interesse em um acordo ganha/ganha numa negociação vem acompanhada de uma série de mensagens silenciosas, sub-reptícias, contraditórias que revelam nossas verdadeiras intenções de dobrar a resistência do interlocutor e obter algum tipo de vantagem não declarada.
Eventualmente somos bem sucedidos. O problema com as vitórias de Pirro (318 – 272 a.C.) é que com as técnicas ganhamos a batalha, não necessariamente a guerra já que, mais dia menos dia, a outra parte descobre a nossa artimanha. Resultado: a revelação desencadeia uma série de atos de vendetta que levam à erosão da confiança, do respeito, da relação humana, profissional ou comercial.
A bem da verdade a autenticidade é a melhor forma para lidarmos com a vida e com os outros. A franqueza pode ser desagradável. Idem a assertividade ou rudeza dos nossos superiores. Mas ao longo do tempo nos damos conta que é melhor conhecer o terreno que pisamos que viver um conto de fadas construído por uma bateria de técnicas que mascaram a realidade.
O velho e sábio Lincoln (1809 - 1865) sabia que é impossível enganar a todos o tempo inteiro. Muitos consultores gerenciais tendem a ignorar este fato menos por má fé e mais porque estão convencidos que o mundo pode ser entendido através de quadrantes de liderança, técnicas gerenciais e uma parafernália de macetes que prometem poder e controle, sem o ônus de assumir que não é o bem estar e crescimento das pessoas que desejamos e sim o poder e o controle.
Agora, antes que alguém saia por aí queimando livros e boicotando seminários gerenciais lembro que as técnicas funcionam quando correspondem a nossa forma habitual de pensar, sentir e agir.
É um paradoxo, mas a técnica é mais útil para quem menos necessita dela, pela simples razão que ela permite lapidar o diamante bruto sem prometer transformar carvão em ouro. Por exemplo, gerentes genuinamente interessados no desenvolvimento dos subordinados aprendem a ser mais eficazes incorporando técnicas de coaching que se encaixam naturalmente em seus hábitos cotidianos.
Em contrapartida, se eu não tenho um interesse autêntico pelo crescimento dos liderados, é ilusório imaginar que as técnicas de coaching lograrão ocultar meu descaso, transformando-me num autêntico gerente coach. As pessoas reagem a quem elas imaginam que somos e não às técnicas que usamos.
Portanto, na próxima palestra e seminário, devagar com o andor que o santo é de barro.