* por Peter Mello, PMP, SpS
Estamos acostumados a tratar projetos através de cronogramas e
estes são “o caminho rosa do projeto”. Rosa por que sempre acreditamos que as
coisas podem sair conforme o planejado.
Não importa o quão pessimista você pode ser em um cronograma, a
única coisa certa é que o seu cronograma vai estar errado.
A essência do planejamento é acreditar que se aprende com os erros
e que se melhoram estimativas a cada ciclo PDCA (Plan/Planejar; Do/Executar;
Check/Controlar; Act/Agir). O gerente de projeto precisa então estar preparado
para aprimorar o seu trabalho continuamente e a todo instante perseguir o
alvo.
Quando fazemos um cronograma a partir das boas práticas
preconizadas pelo PMI (Project Management Institute) nós derivamos da declaração
do escopo para a estrutura analítica do projeto (EAP) e dela para o cronograma,
transformando “o quê” deve ser feito em “quem, quando, quanto, como e por
quanto”.
Exemplo:
• O quê fazer (atividade/tarefa)?
o Um artigo para a
coluna
• Quem (responsável/recurso)?
o Peter
• Quando (data)?
o 26/07/2007
• Quanto (tempo/duração)?
o Introdução: 1
hora
o Texto principal: 2 horas
o Revisão: 1 hora
• Como (procedimento/método)?
o Primeiro a
introdução, depois o texto principal e depois a revisão
• Por quanto (custo/valor)?
o Custo homem/hora para 4
horas de trabalho (autor)

(Estrutura Analítica do Projeto:
decomposição do objetivo)
Estamos então habituados a estimar um tempo para a realização de
cada tarefa e depois seguir medindo o projeto em função daquele tempo.

(Estrutura Analítica transformada em
cronograma e gráfico de Gantt)
O projeto então não é o retrato da realidade, mas o que desejamos
que aconteça. As estimativas iniciais sempre serão maiores ou menores do que o
que realmente necessitamos para a conclusão do projeto.
Em outras oportunidades poderemos comentar sobre estimativas em
três pontos (pessimista, otimista e mais provável) e também curvas de confiança
com base a médias históricas, experiência dos profissionais, etc.
Um fato sobre um cronograma é que dizer que a atividade X vai
levar 30 minutos não garante que ela leve 30 minutos, mas a inexistência de uma
meta irá fazer com que leve muito mais tempo. É melhor ter um cronograma e errar
a previsão do que não tê-lo esperando um milagre.
Para questões subjetivas, como saber quanto tempo um autor leva
para escrever sobre um tema, provavelmente um cronograma baseado em TEMPO é o
suficiente.
No entanto, para muitas atividades ainda precisamos quebrar
paradigmas e começar a gerir projetos por PRODUTIVIDADE, não por TEMPO.
• Isto significa que para levantar uma parede nós não vamos
medir quantos dias leva o pedreiro, mas quantos metros por hora ele é capaz de
construir.
• Se estivermos falando de um “parecer técnico”, quantos (em
média) podem ser feitos por hora ou por dia.
• Para gasodutos, quantos metros de vala a escavadeira pode
realizar.
• Para software, quantos “casos de uso” de “tamanho médio” um
analista consegue descrever por semana?
Em meus cursos, gerentes de projeto seguem afirmando que fazem
esta atividade durante a identificação dos tempos (estimativa de durações)
e que o cronograma então é o resultado destas médias de produtividade. Então,
onde está a diferença?
Vamos ver um cronograma convencional:
• Um pedreiro constrói 1 parede por dia, totalizando 10 m2 (5
m x 2m). Ele tem que construir 4 paredes, logo ele irá levar 4 dias.

Pela forma com que usualmente montamos um cronograma (figura
anterior), basta criarmos quatro atividades e colocarmos um dia para cada uma
para criarmos nossa programação de trabalho.
Agora vamos ver um cronograma por
produtividade:
Ao trabalharmos por produtividade, precisamos necessariamente
atribuir um RECURSO (pedreiro) a atividade. Precisamos também dizer qual é o
volume de trabalho a ser realizado (4 paredes) e precisamos dizer quanto de uma
parede ele normalmente faz em uma hora de trabalho.
Se o dia do pedreiro tem oito horas, então ele faz 1/8 de parede
por hora. O nosso cronograma então é o RESULTADO (0,125 parede por hora x 8
horas x 4 paredes = 4 dias)
Clique aqui
para ver a imagem
Uma vez que o cronograma é montado desta forma, a nossa medição de
avanço de projeto não está mais interessada em quantas horas ou dias se
trabalhou no projeto, mas sim na análise do fato consumado e que melhor retrata
o nosso objetivo de atender ao cliente: Quantas paredes foram efetivamente
levantadas?
Ao final do primeiro dia, espera-se que a medição aponte “1
parede”, mas eventualmente o pedreiro poderá reportar ter feito apenas 8 m2 dos
10 m2 previstos, o que significa “0,8 parede” ou 80% de eficácia
(planejado/realizado).
Ao longo do projeto, temos então condições de registrar um
histórico de produtividades e com isso criarmos um repositório de “tendências”.
Podemos também identificar diferentes produtividades atribuídas a diferentes
pessoas ou equipamentos e então criar um repositório onde as informações diárias
de projeto servirão para melhorar estimativas de trabalhos futuros.
Na medida em que os projetos vão sendo realizados, além de
produtividades atribuídas a recursos específicos (João faz uma parede por dia,
mas Mário faz 1,2 paredes por dia), temos condições de criar projeções de pior
caso e melhor caso, médias por perfil de profissional e até mesmo relacionar
produtividades com fatores externos, como época de chuva, tipos de materiais
utilizados, entre outros.
Criar cronogramas por produtividade significa trazer para o
software os parâmetros de nossas estimativas e não o resultado e aplicar estes
parâmetros consistentemente em cada atividade, descrevendo em detalhes quais são
os recursos atribuídos a cada atividade.
Este tipo de cronograma ficará ainda mais rico na medida em que
também atribuímos a “carga de trabalho” esperada. Ou seja, além de dizer que o
pedreiro é capaz de fazer 0,125 parede por hora, nós também vamos indicar que
ele tem uma carga de trabalho prevista no dia de 90% do tempo contratado. Outros
10% estão previstos para atividades não planejadas como, por exemplo, os
intervalos para ir ao banheiro, buscar suas ferramentas no depósito, bater um
papo com o encarregado, entre outros. Este fator de compensação é corriqueiro no
gerenciamento de produção nas indústrias de transformação, onde normalmente é
considerado um índice de 85% de eficiência na produtividade.
A percepção de que outras atividades interferem no dia-a-dia das
atividades planejadas irá enriquecer a capacidade de entendermos as durações
reais das atividades de projeto e com isso poderemos criar cronogramas cada vez
mais próximos do que iremos de fato presenciar durante suas realizações.