“Todos nós adoramos vencer mas quantas pessoas
adoram treinar?” (Mark Spitz)
A atividade de treinamento é inerente ao mundo corporativo.
Algumas empresas a entendem como imprescindível para o desenvolvimento de seus
colaboradores, elevando a produtividade com impacto positivo na última linha do
balanço. Já outras companhias a enxergam como símbolo de desperdício – de tempo
e dinheiro. E outras tantas apenas a realizam para colorir suas estatísticas de
responsabilidade social corporativa a fim de concorrer a prêmios e ganhar
títulos.
O fato é que o treinamento é primordial para capacitar,
desenvolver, integrar e estimular as pessoas, permitindo-lhes realizar mais com
menos, ensinando-as a trabalhar mais inteligentemente. Todavia, um programa
formatado sem planejamento pode mesmo representar tempo, dinheiro e energia
jogados ao vento.
Por isso, uma questão recorrente é: Como realizar um treinamento
produtivo?
1. Palestra ou Treinamento?
O primeiro passo é compreender as diferentes abordagens
possíveis.
Uma palestra caracteriza-se por ser um evento de curta duração,
podendo se estender desde apenas quinze minutos até duas horas, sendo que
convencionalmente gira em torno de 75 a 90 minutos.
Em regra, a palestra é proferida por um único ministrante que a
apresenta em formato de monólogo, ainda que muitos profissionais façam uso de
diversos recursos para interagir com a platéia, admitindo sua participação.
Diante do tempo disponível, uma palestra tem alcance reduzido,
abordando diversos assuntos superficialmente, exceto se o tema for muito
específico e de cunho técnico ou científico. Todavia, no universo empresarial, a
palestra tem o poder de agir com caráter de sensibilização, buscando promover a
reflexão, surpreendendo, provocando e estimulando as pessoas a saírem da zona de
conforto para atentar sobre novas possibilidades.
Já um treinamento consiste em um trabalho de maior profundidade
que demanda maior dedicação. Evidentemente que a carga horária recomendada
depende de variados fatores, podendo transitar de um mínimo de oito horas até
cerca de 100 horas ou mais, divididas em módulos exercitados no decorrer de
semanas ou meses. Entretanto, diante das dificuldades de agenda das empresas, é
comum observarmos a realização de treinamentos com carga de 8 a 16 horas, num
sistema de imersão total (cursos de um ou dois dias integrais) ou parcial
(cursos de meio período ou realizados à noite).
Um treinamento pode ser conduzido por um único facilitador, não
sendo raro dois ou mais profissionais trabalharem em conjunto. Enquanto uma
palestra pode ser apresentada para um público diminuto ou para grandes platéias,
um treinamento, a fim de ser bem sucedido, deve considerar grupos menores, com
um máximo de 50 participantes por turma, sendo desejável até a metade deste
número em muitos casos.
O propósito de um treinamento é mais do que sensibilizar.
Espera-se desenvolver nos participantes a habilidade de desempenhar uma
determinada tarefa com desenvoltura e segurança. Isso justifica a recomendação
de grupos menores, pois um treinamento deve contemplar a realização de
atividades individuais e coletivas para fixação dos conceitos ilustrados. Não
basta ao participante ouvir e falar. É imprescindível fazer.
Há outras modalidades de trabalho derivadas das anteriores, como
por exemplo, os chamados workshops, que nada mais são do que mini-treinamentos
com cerca de quatro até oito horas de duração.
Entre contratar uma palestra ou um treinamento, a empresa deve
considerar seus objetivos e orçamento. Assim, para divulgar um novo conceito,
reforçar um procedimento ou festejar uma conquista, a contratação de um
palestrante é suficiente e adequada. Já para a implantação de projetos e
desenvolvimento de competências, um treinamento faz-se necessário.
2. Planejando o Evento
Qualquer que seja a modalidade de trabalho escolhida, a ausência
de um planejamento detalhado é o caminho mais curto para o fracasso. É dentro
deste contexto que colhemos tempo perdido, investimento sem retorno e
funcionários desestimulados.
O filme “Como Fazer o Treinamento Valer a Pena”, distribuído com
exclusividade no Brasil pela Siamar, apresenta uma eficiente metodologia de
planejamento para eventos de treinamento corporativo. A proposta básica consiste
em gerenciar o antes, o durante e o depois do evento.
2.1. Antes do Evento
É responsabilidade do gestor levantar necessidades e objetivos que
pretende atingir. Isso já sinalizará inicialmente qual modalidade de trabalho
contratar.
Se o motivo for premiar os resultados alcançados pela força de
vendas, a melhor opção é uma palestra com abordagem motivacional e até lúdica,
pois o momento é de celebração. Porém, se os resultados estão insatisfatórios, a
mesma palestra com perfil motivacional deve primar pelo conteúdo, buscando de
forma envolvente apresentar técnicas que possam ser colocadas em prática com o
intuito de auxiliar na reversão dos resultados adversos.
O local do evento também é importante. Muitos trabalhos podem ser
realizados in company, dentro das instalações da própria empresa, minimizando
custos com deslocamento e infra-estrutura. Contudo, treinamentos com imersão
merecem um ambiente neutro, fora dos muros da corporação, para incentivar os
participantes a se desligarem da rotina e entregarem-se de corpo e alma à
atividade.
A contratação da empresa ou profissional que conduzirá o trabalho
deve considerar formação, experiência, referências e, em especial, capacidade de
personalização do serviço. Converse com o profissional. Observe se há a
preocupação em conhecer o perfil dos participantes e os objetivos delineados
pela empresa. Nada leva mais ao descrédito que uma apresentação que nitidamente
não foi preparada para a audiência que a assiste. São os famosos “enlatados”,
trabalhos padronizados que são indistintamente levados à apreciação de empresas
de todos os portes, de todos os segmentos e para públicos de todas as idades,
graus de escolaridade e níveis hierárquicos. A customização é um fator crítico
de sucesso, pois cada empresa e cada público têm características próprias que
exigem abordagens diferenciadas.
Definidos tipo de evento, objetivos e empresa contratada, é
fundamental orientar e aconselhar os colaboradores. O grande erro neste estágio
reside em enviar as pessoas para o treinamento sem prepará-las. Por isso,
explique a necessidade do evento. Diga abertamente porque a empresa está
investindo tempo e dinheiro na atividade. Demonstre claramente suas expectativas
de melhoria no desempenho. E, sempre que possível, explicite como será feito o
acompanhamento pós-evento, evidenciando que a proposta básica é utilizar
efetivamente o aprendizado no dia-a-dia da empresa. Isso derruba a mística de
que a atividade é um mero evento social, desconectado da realidade da companhia
e que no dia seguinte não se lembrará de nada do que foi visto.
2.2. Durante o Evento
Há uma regra entre os organizadores de evento que diz: “Só termina
quando acaba”. De fato, até que todos tenham partido, nenhum detalhe pode ser
negligenciado. Isso envolve, por exemplo, a estrutura física. Cadeiras
desconfortáveis, baixo índice de luminosidade, ar condicionado desregulado,
acústica deficiente, são fatores que comprometem a atenção dos
participantes.
Os equipamentos solicitados pelo palestrante ou facilitador devem
ser previamente checados. Atenção com pilhas e baterias usadas, pois podem
falhar no momento da apresentação, prejudicando a qualidade do áudio. A sugestão
é utilizar sempre peças novas.
Horários precisam ser respeitados e intervalos regulares devem ser
previstos para café e refeições, sempre com escolha de cardápio adequado. Em
treinamentos com imersão, é comum e mesmo aconselhável a realização de uma
confraternização. Mas esta deve ocorrer apenas ao final do encontro, nunca na
noite anterior ao último dia de evento, por exemplo, pois os efeitos de uma
noite com poucas horas de sono e o provável consumo de álcool impactarão
negativamente no rendimento da equipe.
Uma ocorrência comum observada é a ausência de um colaborador no
evento sob a alegação de que gostaria de participar, mas sua caixa de entrada
está cheia. Barreiras ambientais desta espécie precisam ser superadas com a
ajuda da liderança. Agendas devem ser flexibilizadas, escalas remanejadas, todos
os esforços empreendidos no sentido de possibilitar a inclusão de pessoas
identificadas como target para o treinamento.
Por fim, não meça esforços no sentido de subsidiar o evento com a
máxima qualidade. É lamentavelmente comum encontrarmos materiais pirateados
sendo utilizados o que denota grande incoerência com o propósito do treinamento
e possivelmente com a própria carta de valores da companhia.
2.3. Após o Evento
Concluída a atividade é importante verificar se as metas foram
atingidas. O primeiro instrumento é uma pesquisa de satisfação que deve
idealmente ser aplicada ainda durante o evento, ao seu término. Pesquisas
respondidas posteriormente perdem em representatividade, posto que deixam de
captar o momento vivenciado pelo participante.
Uma segunda mensuração deve investigar se houve melhora no
desempenho e na produtividade em decorrência do treinamento realizado. Porém,
isto só é possível se um pré-teste tiver sido realizado antes do evento.
Nesta etapa, cabe novamente ao líder identificar no colaborador as
vantagens do treinamento, demonstrando-lhe pontualmente o progresso auferido. É
a hora certa para recompensá-lo, sempre ressaltando que a remuneração financeira
não é o único e nem sempre o melhor expediente para reconhecer e fidelizar
talentos.
Mas como o trabalho não cessa, é significativo também reafirmar
periodicamente os conceitos e aprendizados, a fim de promover a melhoria
contínua. Um bom instrumento de apoio, nestes casos, pode ser o e-learning.
3. Conclusão
A realização de palestras e treinamentos é uma atribuição das
corporações. Afinal, considerando-se a crise do ensino em nosso país e um modelo
de desenvolvimento sócio-econômico que transfere muitas responsabilidades do
Estado para as empresas, o trabalho de capacitação dos trabalhadores ganha
relevância como pré-requisito na busca pela competitividade.
Mas sem planejamento adequado que identifique por que fazer o
treinamento, quando e onde realizá-lo, quem participará, quem ministrará, quanto
será investido, como será mensurado o resultado e o que empresa e colaboradores
ganharão com a atividade, corre-se o risco de efetivamente ver tempo e dinheiro
desperdiçados.