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Qualquer um que procurar nas revistas de negócios da atualidade por
informações a respeito do perfil das pessoas e empresas de maior sucesso hoje,
vai encontrar uma característica que se repete constantemente. É a capacidade de
lidar com realidades incertas, imprevisíveis e mutantes. E isto nem sempre é
fácil se conseguir!
A verdade é que todos nós gostamos muito de ter certezas e enxergar com
clareza os limites das coisas. Nosso cérebro se organiza por meio de padrões, e
é natural que busquemos identificar bem onde as coisas começam e onde terminam,
a fim de tornarmos nossa visão menos turva e estruturarmos melhor o pensamento.
Mas o que isto tem a ver com inovação? Bastante coisa.
Justamente por causa desta necessidade de certezas e previsibilidades, muitas
vezes o pequeno empresário fica perdido e angustiado por não ter
clarificado o passo a passo de seu caminho no mundo brutalmente competitivo em
que vivemos; aí, geralmente o que acontece é que, ou ele trava, assustado com a
falta de parâmetros à sua volta, ou tenta caminhar no “ritmo do mercado”.
Resultado? Fica pra trás!
Em minha particular e humilde opinião de consultor, é importante ao gestor da
pequena empresa entender que, quanto mais ele se esforçar por ter o controle “de
todas as coisas” e entender o “preto no branco” hoje em dia, mais confuso e
angustiado vai ficar, e menos ousado será em busca de novas formas de atingir o
mercado. É que o novo assusta!
Por vezes certos empresários encontram dificuldades em inovar porque, além de
fazerem este esforço inútil para compreender tudo à sua volta em busca de
certezas e previsibilidades, também acabam fazendo a si mesmos__ em geral
inconscientemente __ algumas perguntas que, apesar de não serem inadequadas, são
insuficientes para quem queira competir de verdade hoje. As perguntas são:
O que fazem mesmo os empresários da minha área? Como se comportam meus
concorrentes? Que estratégias usam? Como trabalham?
Veja que estas perguntas, este “benchmark”, embora faça muito sentido e seja
muitíssimo lógico, não é mais suficiente em um mundo que está ilógico, sem um
sentido claro, e no qual a commoditização está por todos os lados. Outro
ótimo motivo para não ficar se fazendo apenas estas perguntas__ e o mais
importante em minha opinião __ é que ela automaticamente limita nosso raciocínio
ao que já se pratica por aí.
A verdade é que se todo mundo ficasse se perguntando “o que faz a
concorrência” ninguém jamais inovaria, e provavelmente ainda viveríamos em
cavernas. O que quero dizer é: A pequena empresa que ficar se perguntando apenas
o que as outras em seu meio estão fazendo, dificilmente desenvolverá a
perspicácia de fazer algo diferente do que já está sendo feito por aí.
É claro que é importante saber o que a concorrência faz, até mesmo para poder
traçar estratégias de competição adequadas. Ainda assim, penso que a
pergunta feita de outra maneira pode abrir portas para uma realidade
muito mais rica e cheia de possibilidades ao pequeno empresário, embora de forma
menos previsível.
A sugestão é: Pergunte-se o que a concorrência “não está fazendo” e o que
geralmente “não se faz” em seu mercado de atuação. Esta é uma forma
interessante, embora não a única, de conseguir insights criativos sobre como
fazer as coisas de modo diferente e inovador.
Quer um exemplo?
Há algum tempo recebi em minha casa uma mala direta, pelo correio, me
convidando para uma promoção super legal, no mês de agosto. Era uma loja? Não!
Lançamento de filme? Não! Assinatura de revista? Não! Era um buteco! Um buteco
bem arrumado, é verdade, mas um buteco_ conheço o dono. Intrigado com aquilo,
resolvi dirigir-me ao estabelecimento em questão, perto de minha casa, e
perguntar a ele de onde havia tirado a idéia.
__ Ah, foi minha filha!__ disse. __ De tanto receber isso das lojas, ela um
dia, me vendo reclamar do lucro, perguntou por que eu não cadastrava e fazia o
mesmo com alguns clientes. Aí eu disse: Mas minha filha, buteco não faz isso,
isto é coisa de loja de roupa e... ops!
Precisa contar o resto?
O problema todo em se perguntar exclusivamente “o que fazem por aí” em seu
mercado, é que sua empresa vai acabar fazendo exatamente “o que fazem por
aí, e da maneira que fazem por aí”. Aí já viu né? Vai virar
commodity.
Mas é claro que para a pergunta inédita não há resposta pronta, e se atrever
a remexer com o novo exige uma boa dose de coragem, já que nem sempre se sabe
onde se está pisando.
Reinventar é perguntar diferente! É sair do quadrado e muitas vezes fazer
conexões quase absurdas e à primeira vista improváveis. É brincar com a
realidade e aceitar o risco de uma nova atitude. É se permitir!
A inovação não começa nos processos, nas técnicas ou nos instrumentos
gerenciais, começa na cabeça (às vezes no coração) das pessoas, e é fruto de uma
observação atenta, de uma postura aberta, e da disposição em dar os primeiros
passos sem necessariamente conhecer todos os detalhes do caminho à frente, mesmo
porque, tais “detalhes” ainda nem existem - serão construídos no decorrer da
caminhada.
Por isso perca os limites, exceda os parâmetros, combine o improvável,
inverta a pergunta e reinvente seu buteco.
Talvez você se sinta um pouco perdido inicialmente, talvez as pessoas à sua
volta se assustem, pode até ser que você pareça meio maluco, mas tenha certeza
de que, brincando com a realidade de forma séria e responsável, a grande
tendência é que sua inovação seja um grande sucesso. Não acredita? Então venha
comer um tira-gosto no buteco do Tinoco num sábado destes, mas chegue cedo,
senão vai ter que ficar em pé! É mole!
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