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O término de mais um ano conduz o empresário invariavelmente à reflexão. Os
números obtidos no frio balanço contábil, para quem os analisa, espelham uma
realidade que proporciona alegrias para uns, semblantes preocupados para outros
e para quem considerou o ano um autêntico pesadelo, alívio por ter se encerrado.
Em qual vertente você se encontra?
Perseverança, criatividade, conhecimento do mercado e capacidade de assumir
riscos, estão dentre as qualidades que contribuem, indubitavelmente, para o
sucesso da empresa.
Conheço pequenos empresários, no entanto, que não querem crescer e o mais
estranho: temem o sucesso. O temor está em perder o controle da situação. Em
nome da qualidade de vida negam-se a investir e centrar esforços para que o
negócio continue prosperando.
Em meu bairro há pequenos comerciantes e prestadores de serviços de todo o
gênero e costumo trocar impressões com eles. Não faz muito tempo, conversei com
o dono de um pequeno mercadinho, estabelecido no bairro há mais de cinco anos.
Seu ponto de atração era o açougue, através do qual atendia a maioria dos bares
e restaurantes da região, bem como, os moradores do entorno. Reinava com
tranqüilidade, sem medo da concorrência, até que um dia, um empresário com
estrutura econômica mais avantajada resolveu instalar-se a menos de 1 km de seu
estabelecimento. A princípio o pequeno comerciante deu de ombros, esclarecendo
que o bairro não comportava um negócio daquele porte. Em sua visão, acreditava
que o novo supermercado muito em breve iria fechar as portas, porque não
conseguiria suportar os custos de aluguel e demais despesas. Além do mais, o
dono do mercadinho gabava-se de possuir uma clientela fiel, a qual não o
abandonaria.
A ninguém é dado o direito de retirar as esperanças de quem quer que seja,
mas é ético procurar, ao menos, de forma sutil, despertar a pessoa para que ela
inclua em suas análises novos horizontes, diferentes daqueles que tem em vista.
Minhas observações e alertas nesse sentido, no entanto, não foram levadas em
consideração. Inaugurado o novo supermercado, presenciei o efeito devastador
sobre o pequeno comerciante. A clientela desapareceu como um passe de mágica e
apenas o açougue já não era suficiente para gerar os recursos mínimos
necessários à sua sobrevivência. Em vão e tardiamente, o pequeno empreendedor
tentou efetuar mudanças, porém, de natureza cosmética como pintura externa, novo
layout da fachada, dentre outras. Todavia, nada funcionou e ele foi o primeiro a
fechar as portas.
Outros pequenos empresários também foram afetados. O novo supermercado possui
preços competitivos, inclusive em face de grandes redes e, além de um belo
açougue, possui uma modesta padaria e um setor de hortifrúti. Há filas no
açougue, na padaria e, principalmente, nos caixas que invadem corredores
adentro.
Como conseqüência desse sucesso, uma das três padarias do bairro já encerrou
as atividades e as restantes estão intensificando os esforços para minimizar o
impacto desse concorrente de peso. O último a cair foi o “sacolão”, um
hortifrúti que também reinava no bairro há uns sete anos.
Esse episódio, aparentemente simples, mas de efeitos econômicos relevantes,
nos traz algumas lições. A mais relevante delas é dizer não à acomodação.
Os empresários que se encontram satisfeitos com o porte de seu empreendimento
e insistem em não crescer, mesmo havendo demanda para esse fim, devem rever esse
posicionamento urgentemente. A crença de que seus clientes jamais o abandonarão
poderá cair por terra, tão logo um novo concorrente se instale na região. Todo
consumidor anseia por novidades, melhores condições de preços e qualidade de
produtos e serviços.
Quem entende bem dessa situação de não se acomodar é o mega empresário Bill
Gates, dono da Microsoft. Muitos o criticam por ele dominar o mercado. O sistema
operacional Windows, sob seu comando, encontra-se presente em 95% dos
computadores em todo o mundo. Desde 1998 a empresa vem sendo acusada da prática
de concorrência desleal por impedir que empresários menores criem softwares ou
ferramentas que de alguma forma possam competir ou conviver com o sistema
Windows. Não é sem razão que em setembro de 2007 a Corte Européia confirmou a
multa à Microsoft no valor de US$ 1 bilhão por abusar de seu poder de mercado.
Em que pese o comportamento criticável, o fato a ser destacado é que Bill
Gates não se acomoda sob nenhum pretexto. A cada nova ameaça ao seu sistema
operacional ele o aperfeiçoa inserindo uma nova ferramenta, como uma vacina para
anular seus efeitos. Às vezes a vacina é tão fulminante que extermina quem a
criou. É lícito promover o aperfeiçoamento no sistema operacional com vistas a
torná-lo mais eficaz para não perder mercado, contudo, sem dizimar a
concorrência.
O pequeno empresário, sem perder de vista a diretriz ética, deve pensar da
mesma forma. Deve estar atento ao que faz seus concorrentes. Não se trata aqui
de espionar seus adversários, porquanto se estaria adentrando a um comportamento
reprovável. Muito pelo contrário, deve conhecer por intermédio das campanhas
publicitárias realizadas por seus competidores, as estratégias para atrair e
manter a clientela. Se a pizzaria concorrente entrega uma pizza grátis a cada
dez, faça o mesmo ou melhor! Se um supermercado não atende pelo telefone, passe
a fazê-lo. Se a papelaria da esquina não oferece produtos elaborados a partir de
materiais reciclados, introduza esse diferencial em seu negócio. A
acomodação, portanto, não é aceitável em qualquer cenário empresarial e aqui não
se trata da visão estreita de ser considerado ganancioso. Na verdade, é uma
questão de sobrevivência: crescer para não perecer.
Neste sentido, você, pequeno ou médio empreendedor, procure substituir seus
temores por ferramentas de gestão que possam melhor orientá-lo sobre os passos a
serem dados. Analise com a devida atenção as mensagens que são transmitidas pelo
balanço contábil. Reavalie-se. Não tema as críticas de seus colaboradores,
clientes e fornecedores. Tenha coragem para corrigir aquilo que está fora de
sintonia. Introduza, pouco a pouco, as vertentes da sustentabilidade em seu
negócio; faça disso um diferencial competitivo, porque cedo ou tarde o mercado
passará a excluir os empresários que não se preocupam com responsabilidade
social, meio ambiente, dentre outros elementos que compõem a sustentabilidade.
Expanda a sua consciência para além do lugar comum, tendo a ética como sua
aliada em todas as relações.
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