O ensinamento é uma via de duas pistas. Ensina-se e aprende-se ao mesmo
tempo, cuja proporção depende mais da nossa disposição do que propriamente de
conhecimento. E o aprendizado fica cada vez mais vivo e realizador à medida que
nos aproximamos da realidade das coisas. Quanto mais prático e real, melhor.
Principalmente quando se trata de varejo alimentício, cujo ciclo de compra
conta-se em horas ou dias, diferente de bens duráveis que se conta em meses ou
anos.
As maiores indagações que escuto nos treinamentos direcionados ao setor
alimentício dizem respeito à concorrência, dificuldade de mão-de-obra
especializada, falta de comprometimento das pessoas, qualidade do atendimento,
mix de produtos, temas inerentes à gestão do negócio. Claro, não fica de fora
outra dúvida que talvez seja a maior de todas: como obter lucro e ainda fazer o
empreendimento crescer nesse mercado cada vez mais exigente e desafiador.
São questões difíceis. Mas todas plenamente solucionáveis, acredite. Sabe por
quem? Por você mesmo, uma vez que ninguém conhece melhor a sua panificadora,
loja de conveniência, supermercado do que o seu fundador ou o responsável por
sua gestão. Se você está à frente do negócio, próprio ou por delegação, compete
a você listar as prioridades e buscar as soluções, uma a uma. Por menor que
seja, sempre trabalhar em equipe. Ponderar e ouvir são recursos importantes.
Em mercado de concorrência, manda quem compra. Sem concorrência, manda quem
vende. Esta é a primeira lição de casa a ser feita com esmero e dedicação, todo
o santo dia. Logo, não faça a loja dos seus sonhos, mas a dos sonhos dos seus
clientes. São para eles que as portas são abertas, assim como os sinos tocam
para chamar os fiéis. Tudo no ponto-de-venda deve refletir a imagem do cliente,
o que ele vai achar disso, daquilo, da qualidade, da limpeza, da variedade, do
serviço e do atendimento.
Tem muito a ver com a disposição de servir que o seu pessoal demonstra olho
no olho do cliente. Sorrir com os olhos e o coração, porque cara feia não
combina com os sabores que você vende. Se o clima interno for desagradável, a
receita do bolo desanda, o pão não sai no ponto e o caixa começa a esvaziar. Uma
loja serve o que ela tem melhor ou pior. Se a química interna não for positiva,
dificilmente você vai obter comprometimento dos co-atores do negócio, muito
menos fidelidade dos clientes.
Nada mais desagradável do que faltar pão mais dourado ao gosto do freguês que
compra todo dia mais ou menos no mesmo horário. Faltar presunto, mortadela
e leite daquelas marcas que a cliente de todo dia gosta. Aqueles doces saborosos
que se transformaram na marca registrada sua. Pior ainda se faltar aquela
expressão de sorriso e cumplicidade que são quem sabe a principal razão da
preferência dos clientes. Tudo o que você se propor a fazer tem que ter QRS –
Qualidade, Regularidade e Simplicidade.
“As coisas mudaram muito. Não se pode mais cobrar, pedir a colaboração dos
funcionários, que ficam ofendidos, somem e só aparecem para receber”, queixou-se
um empresário recentemente. Mudou tudo, sem dúvida. Mas não mudaram os mais
elementares princípios do relacionamento humano. É preciso haver certo
balanceamento na arte de inspirar pessoas. Cobrar, exigir, chamar à
responsabilidade é parte legítima do empregador. Mas é preciso temperar com um
pouco de ensinamento, elogio e reconhecimento.
Por falta de um mínimo de sensibilidade, de jeito para lidar com gente, tenho
observado que as empresas perdem bons profissionais, os quais não se desligam da
empresa em si, mas de chefes, gerentes e patrões que operam lojas modernas
usando conceitos do Século 19. Assim é muito difícil formar equipes com talento
para atender com eficiência as demandas dos novos consumidores, cujos anseios
não se limitam a produtos e serviços, mas a outros valores também. Produtos eles
comprar em qualquer lugar. Atendimento personalizado, só na sua loja.
Claro que o fator conveniência é importante. A parte de mercearia pode muito
bem encantar os clientes com marcas famosas, bebidas geladas, exposição
atraente, limpeza e disponibilidade das mercadorias. Entretanto, a fidelidade
dos clientes é construída a partir da engenharia inteligente dos produtos de
fabricação própria. Variedade, sabor e frescor (quente) de todos os itens que
são fabricados dentro de casa. O cheiro de pão quente é o maior segredo. Assim
como o caixa, segredo não se terceiriza.
Outro grande segredo interceirizável é a qualidade da sua gestão. É daí que
vem o lucro. Ou o prejuízo.