"Não Me Amarra Dinheiro não, Mas Compostura... "
(Beleza pura – Caetano Veloso)
Sangue latino, muita paixão, bom humor e descontração em alta!
Assim é o brasileiro médio. Vive um dia de cada vez, faz seu auê com os amigos
no fim do dia e, via de regra, está de bem com o mundo; uns mais no aperto,
outros mais folgados, e quando perguntamos como vai a vida a resposta quase
sempre é: “Vou levando”!
Esta é nossa cultura e nosso jeito de ser. Soltos, intuitivos,
passionais!
Planejar não é muito bem visto por aqui. Escrever o planejamento
então, que saco! “Metas? Métricas? Processos? Ah, sai dessa, eu quero é ser
feliz! Sei... Anhãn... Usar um software de gerenciamento financeiro em minhas
contas pessoais... Você está louco? Acha que eu vou virar um fanático com
objetivos e controles e lançar no PC aquela empada com suco de goiaba que
comi hoje cedo? Já falei, eu quero é ser feliz!”
Não sou uma pessoa viajada, muito menos conhecedor profundo de
outras culturas para tecer boas comparações, mas de uma coisa eu sei: A maioria
de nós por aqui é avessa ao planejamento, especialmente quando este se dá no
aspecto financeiro.
Aliás, brasileiro parece que tem preconceito com dinheiro; é quase
como se fosse algo sujo, feio, coisa de “gentinha gananciosa” sabe. Educação
financeira é algo que passa longe de nossas escolas, e o senso comum é que cada
um se vire e aprenda como usar seu dinheiro.
Bem, a triste verdade é que há muitos profissionais hoje no
mercado que enfrentarão a terceira idade em consideráveis dificuldades
financeiras. Não porque não ganhem dinheiro agora, e sim porque detestam ter que
planejar, poupar e investir; e se não desconhecem, pelo menos torcem a cara para
aquilo a que se chama na vida de “previdência”.
Não, não é da previdência pública que falo, nem mesmo da privada,
e sim do comportamento previdente. Particularmente, sou da opinião de que pensar
no futuro com responsabilidade não é ser um sovina mão de vaca que deixa de
viver as boas coisas da vida, e sim entender que um dia o imprevisto e a idade
vêm, o pique diminui e a força vai minguando. E claro, todos nós queremos
conforto e segurança para viver, especialmente às portas do crepúsculo da
vida.
Há quem ande a pé (ou de táxi) e custe a pagar o aluguel, mas não
deixa de freqüentar constantemente bons restaurantes e viver com tudo “do bom e
do melhor”! Vivem o dia!
Prestação de casa? Carro? Patrimônio? “Eu quero é viajar!”
E assim vão vivendo, até chegar aos sessenta anos e perceberem que
mal tem onde cair mortos. Aí terão que continuar a trabalhar em uma idade na
qual o corpo já começa a pedir descanso e a alma já clama por dias mais amenos.
Se derem a sorte de terem filhos previdentes, estarão amparados, se não,
provavelmente vão passar necessidade ou ter que viver da mísera pensão que o
governo (graças a Deus, nesses casos) o obrigou a pagar através do INSS.
Ora, mas quem sou eu para julgar como as pessoas vivem suas vidas!
E longe de querer dizer a elas se estão certas ou erradas, o que busco aqui é
citar fatos, exprimir meu ponto de vista e, quem sabe, chamar sua atenção para a
questão.
Pra mim dinheiro não é sujo nem sagrado. Dinheiro é permissão, só
isso, e se for ganho com trabalho honesto e inteligente é nada mais que legítimo
”poder de troca”.
Tenho 29 anos de idade e não vivo como um morto de fome, mas abro
mão de muitos luxos imediatos em nome de garantir investimentos e bens duráveis
que me farão falta no futuro. “Ainda” deixo de atender a muitos desejos pontuais
meus para construir segurança financeira em médio prazo.
Ok, tudo bem que eu posso morrer amanhã, como me disse outro dia
um colega! Tá bom, mas é que eu posso não morrer também e, matematicamente
falando, se estou vivo até hoje a tendência de que continue assim é bem grande.
Não me abalo, pois sei que em breve chegará o dia em que as
prestações irão acabar, os investimentos darão retorno e poderei então “viver
com mais estilo”. Mas por enquanto sou assim: guardo, planejo, invisto e espero.
Azar meu, que posso morrer amanhã!
E olha, se você não se comporta assim eu não tenho nada com sua
vida! Isto aqui é apenas um artigo e eu precisava de um bom tema para a semana;
aliás, como já dizia a abolida propaganda de cigarros: Cada um na sua...
Sei, no entanto, que é muito triste ver alguém já mais velho
trabalhando por obrigação, quando queria e poderia estar descansando ou
trabalhando somente por prazer, para complementar a renda.
Pessoas que tiveram um estilo de vida agradável, viajaram
bastante, comeram bem, divertiram-se a valer e agora pensam: E quando o corpo e
a mente já não agüentarem, o que farei?
E não me amarra dinheiro não, sabe, mas que iria ficar complicado
manter a compostura tomando ônibus lotado pra receber pensão do governo e
matutando se ia ter com o que pagar todas as contas do mês, isso iria; ô se
iria!
Até a próxima.