“O seguinte texto é um desabafo irônico sobre algo que me aconteceu há menos
de 3 anos. E dedico-o a todos os jovens que talvez possam ver seus sonhos sendo
engaiolados pela falácia da comodidade”.
Cresci ouvindo meu pai dizer da grandeza do Dr. Roberto Marinho, que aos 64
anos, faltou empenhar os olhos para abrir a rede globo; ouvia também da astúcia
de Antonio Ermírio de Morais, cuja força e poder no comando do grupo Votorantim
faziam brilhar-me os olhos. Meu avô, que ao que me parece, não nasceu rico, com
seu trabalho e suor construiu uma empresa de transporte que, no mínimo, fez dele
hoje um homem de sucesso.
Há algum tempo me formei em psicologia, e sempre me interessei por assuntos
de administração e organizações. Comecei a estudar sobre a gestão de pessoas e a
me interessar por assuntos como empreendedorismo e consultoria. Na primeira
chance que vi, decidi abrir um pequeno negocio e comuniquei a idéia a meu pai,
esperando mesmo a satisfação por me ver sendo um homem de negócios. A resposta:
Faça um concurso! Arranje um emprego! Seja um empregado, não há coisa melhor
nesse mundo!
Realizar algo? Besteira... Mais vale um dinheiro certo no fim do mês e o
plano de saúde. Empreender? Loucura! __Imagine só uma rotina de funcionário
público mesmo_ disse: Ar condicionado, poltrona macia, cafezinho e horário fixo.
Quem é este que ousaria uma vida de incertezas neste mundo cão, sendo que
poderia achar para si um buraco quente no qual se recolher. Fico pensando, que
beleza deve ser uma rotina dessas! Imaginem as emoções na repartição, os
desafios de protocolar mais um formulário!
Criar filhos deve ser a coisa mais complicada deste mundo. Vejam meu caso,
criaram-me ao exemplo de águias, e hoje me dizem pra ser uma galinha; lembrei do
meu primário e de Leonardo Boff. Porque a águia se arrisca nas alturas e todos
os dias há que procurar sua caça para sobreviver, no entanto, voa por lugares
insondáveis e tem sua casa no topo do mundo. Já a galinha, ora, besta que não é,
tem sempre um fazendeiro a trazer-lhe o milho e o farelo, não tem incertezas com
que se inquietar, e embora não voe a lugar algum e não contemple nenhum
horizonte, tem ali, ao final do dia, o puleiro certo. E muitas são as galinhas
que lhe fazem companhia.
A águia é só. Aliás, outro ícone de minha infância mostrado por meu pai, que
dizia da liberdade, força e capacidade de visão desta criatura, que por ser
diferente do comum, é quase solitária em seu caminho. Os cumes nos quais ela
ousa pousar são vazios, porque são poucos os que têm capacidade para atingí-los.
Seus dias são incertos e seus desafios muitas vezes dolorosos.
Fosse a águia ser uma galinha! Imagina que beleza! Que esperteza seria!
Desceria ela a uma fazenda, arranjaria para si um fazendeiro, e passaria o resto
da vida tranqüila, comendo milho e farelo, dormindo no puleiro, e não tendo que
se preocupar com as incertezas da liberdade, com a caça do próximo dia, com os
ventos gelados e incertos das alturas.
Eu cresci pensando que era uma águia... Aliás, cresci pensando várias
coisas... Quando eu tiver um filho, darei um jeito de ensiná-lo desde cedo a não
sonhar demais, e direi que os exemplos de grandes homens e nobres animais são
apenas isso, exemplos, e não se aplicam ao mundo real, à vida cotidiana.
Acabo de completar 28 anos e já penso seriamente em desistir dos meus sonhos,
de todos eles. E para isso conto com a ajuda de alguns. Acho mesmo que vou
abandonar tudo, fazer um concurso e derramar café em protocolos o resto da minha
vida. Tudo bem que não é emocionante e me parece que não irei realizar muito
mais que bater uns carimbos e bocejar, mas o farelo é certo e o puleiro quente
sempre estará ali. Poderei então bater meu ponto às 6 da tarde, dar uma
corridinha, e não terei coisa alguma com que me preocupar, além de que sentido
fará a minha vida. Terei ticket refeição e, imaginem, não pagarei nem o
dentista, talvez eu consiga mesmo um beneficio para a gasolina.
Sonhar é pra quem pode, não pra quem quer! Eu queria mesmo ser uma águia,
cheguei até a pensar que teria capacidade para isso, mas sabe, penso que vou
desistir, da minha empresa e dos meus sonhos. Amanhã mesmo compro o livro do TJ,
porque embora tenham me ensinado a observar e admirar as águias, querem mesmo é
que eu seja uma esperta de uma galinha... Imaginem só!