O empresário e consultor Fábio Azevedo nos fala sobre as características
da cultura e filosofia oriental, como ela se aplica aos negócios e como podemos
usar estes conceitos em nossa vida profissional.
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Fábio Azevedo no Portal O Gerente.
1. Quais são as principais características da cultura e filosofia
oriental?
A cultura e a filosofia oriental sempre foram baseadas no estudo dos opostos
(milenar escola yin yang), lidando sempre com oposições que se encontram em
estados complementares, diferente da cultura ocidental, que visa fatores
limitantes e baseados em uma lógica vinda dos estudos de Aristóteles, que tende
ao particionamento. 2. Como estas
características são aplicadas pelos orientais nos negócios?
No oriente, praticamente tudo se baseia na cultura dos opostos, existe sempre
a necessidade de entender como os objetos em estudo interagem e repercutem no
meio que os cerca. Esta visão mais holística, que não exclui, consegue
compreender o mundo como um todo, analisando melhor as conseqüências geradas no
meio. Isso leva a uma melhor compreensão das críticas feitas ao comportamento
ocidental, que tende a separar o pensamento da ação, isso não é aceito no mundo
oriental, no qual quase sempre tende a elaborar suas estratégias com o
pensamento e a ação, o planejamento e o implemento estão diretamente vinculados,
são indivisíveis. Essa visão pode até parecer um pouco confusa a princípio,
alguns me perguntariam, como algo baseado em opostos pode trabalhar
complementado-se?
Costumo dizer que, para compreender a lógica do pensamento oriental, é
impreterível estudar sobre a influência da escola yin yang de pensamento, ela é
a base, o cerne das ações no oriente, o objeto deve sempre estar integrado ao
meio, e o meio deve sempre absorver o objeto, criando uma simbiose perfeita, que
harmoniza e agrega. Para nós ocidentais que fomos educados em uma cultura
baseada na lógica de Aristóteles, que tende ao particionamento, ou seja dividir
para compreender, esta visão holística torna-se bem confusa no início.
Compreender o que o oriental entende como oposto e como complementar é a
base para navegar por este universo tão diferente do nosso, e que tanto assusta
a comunidade ocidental.
3. O que os ocidentais podem aprender do estilo oriental de fazer
negócios?
Na escola oriental, baseada no estudo do yin e yang, nunca se separa um
objeto para conhecê-lo, seja na vida ou nos negócios, deve-se sempre entender a
circunstância do todo e como ele se integra. Esta visão particularmente vinda do
oriente, afeta o todo no qual o oriental se relaciona, causando estranheza desde
os tempos mais remotos.
Se formos detalhar ainda mais, podemos perceber que falando de planejamento
no mundo ocidental, planejar significa separar o alvo de estudo, dividi-lo em
várias partes, para que assim se possa compreender melhor, e partindo disto
elaborar um plano de ação, uma estratégia. No oriente, dividir o alvo de
estudo se torna desnecessário quando se entende como tudo se conecta, a forma
como o objeto de estudo interage com o meio, como tudo se inter-relaciona.
Concordo com pontos da visão ocidental, que de certa forma, funcionam e
tem seus méritos, o que costumo defender, é justamente a ampliação desta visão.
O oriente esta cada vez mais acessível, e já está comprovado que a forma que
eles fazem negócios e montam suas estratégias funcionam, por isso, devemos
aprender a mesclar estas competências, e desenvolver técnicas de ação que
analisem mais o todo e compreendam melhor a influência do objeto no meio
aplicado.
4. Quais estratégias e comportamentos são mais adequados
para negociar com empresas e profissionais orientais?
Não acredito em nenhuma fórmula, como em qualquer estratégia, o nosso guia de
ações deve em primeiro lugar analisar os hábitos daqueles com quem vamos
realizar negócios, essa interação é fundamental, conhecer sua cultura, seus
hábitos, em que suas crenças são fundamentadas. Estes são os primeiros
passos para negociar bem, o resto é feeling, como em qualquer outra negociação.
Mesmo no oriente, ninguém é igual a ninguém, cada situação é única!
5. Qual é a melhor forma de evitar um “choque
cultural” nos negócios, que pode muitas vezes destruir uma
oportunidade?
Como respondi anteriormente, a melhor forma é conhecer bem a pessoa e ou
grupo que vamos nos relacionar, e conhecer seus hábitos e sua cultura é sem
dúvida o primeiro passo.
Fazer negócio, é dividir objetivos, se você não compartilha do mesmo
raciocínio, dificilmente conseguirá interagir para gerar um acordo que satisfaça
ambos os lados. 6. Com o avanço da globalização,
as diferenças culturais entre ocidentais e orientais não tende a
diminuir? Não acontecerá o mesmo com a filosofia de
negócios?
Sim e não! Creio que a globalização tende realmente a somar culturas, mas
quando falamos do oriente, falamos de culturas milenares, que trabalham seus
objetivos com prazos de 100, 300 ou 500 anos, e o ocidente não compartilha esta
visão. A cultura oriental é baseada em fatores que não fazem parte de nossas
raízes, por isso, concordo que com o tempo, muito será aprendido por ambos os
lados, mas é muito mais fácil que eles absorvam nossa forma de pensar e agir, do
que nós absorvamos a deles.
Se formos a fundo, veremos que grandes impérios como Toyota, Hyundai, Tata,
Honda e tantos outros, adaptaram-se com maestria ao pensamento ocidental, e
ainda são em muitos pontos, uma incógnita. Sua forma de agir e pensar,
principalmente quando falamos de negócios, é alvo de estudos e análises
profundas, que na maioria das vezes mostra que o que faz a diferença, esta muito
além do que imaginamos em nossa visão regularmente simplista. Como citei antes,
tendemos a separar para compreender, e os orientais sempre analisam o todo, e
como ele faz parte do processo global. 7. As
empresas orientais estão cada vez mais presentes no mercado brasileiro.
Que cuidados um profissional deve ter ao começar a trabalhar com chefes
orientais?
Em primeiro lugar, seja você mesmo, não vou enumerar aqui um guia, pois creio
que isto é um pouco complicado. Devemos ter os mesmos cuidados que teríamos em
qualquer outra empresa, ter um chefe oriental não é um dragão de sete cabeças.
Agir com disciplina, educação, parcimônia, arrojo, dinamismo, é fundamental, mas
continuo a defender que, para você conviver com uma outra cultura, é
imprescindível entender o que ela valoriza, por isso, se você tem um chefe
japonês, procure entender quais são suas origens, se ele é um tradicionalista,
quais são suas diretrizes profissionais, isso vale para qualquer outra
ascendência, chinesa, indiana, coreana, não importa, na verdade isso vale para
qualquer cultura, procure entender quais são os valores que motivam aquele
profissional, assim você poderá fazer parte do meio, e não desagregará o
todo.
8. Como você aplica a filosofia oriental em seus próprios
negócios?
Minha vida sempre esteve ligada diretamente ao modo de pensar oriental, fosse
por meio das artes marciais, ou dos estudos filosóficos de religiões como o
Budismo, o Taoísmo e o Confucionismo. Desde muito cedo, eu mergulhava nos
ensinamentos que assimilava dos livros, e que também recebia de meus mestres.
Atualmente costumo seguir três princípios e posso dizer que eles regem minha
vida, são eles, DETERMINAÇÃO, PERSISTÊNCIA E PACIÊNCIA, estes três pontos
tornaram-se tão importantes para mim, que os aplico em tudo o que faço.
Estes princípios mudaram tanto minha vida, que em breve, falarei um pouco
mais do que aprendi a respeito deles em um livro que estou terminando, e
pretendo publicar no fim deste ano.
Neste conjunto de características a DETERMINAÇÃO é o principal combustível da
vida, sem ela não alcançamos nossos objetivos. No mundo dos negócios, ser
determinado é a diferença entre o sucesso e o fracasso.
Vi por muitas vezes profissionais que depois de várias respostas de compra
negativas, desistiam de buscar o sim. A vida é para os fortes, e no mundo dos
negócios, somente sobrevive aquele que busca seus objetivos com determinação e
positivismo. Ter uma visão positiva do futuro, faz parte dos critérios para se
construir uma empresa de sucesso. Nossa mente é poderosa, e afeta o nosso
ambiente de convivência, uma personalidade determinada e positivista, contagia
todos ao redor, produzindo um ecossistema laboral saudável e propenso a grandes
negócios.
A PERSISTÊNCIA é fundamental, sem ela, de nada vale a determinação, esta
atitude faz a diferença na vida e no mundo dos negócios. Como falei antes, a
persistência é a segunda característica que pauta minhas atitudes e é preciso
aprender a cultiva-la, a persistência deve tornar-se um hábito em tudo que
fazemos na nossa vida. Quem de nós nunca conheceu alguém que começou uma
faculdade e não terminou, ou mesmo um curso de idiomas, ou uma academia e sempre
desistem antes de alcançar o objetivo.
Por isso, devemos dar atenção especial a esta atitude, pois a persistência e
capaz de transformar nossa vida, e esta é uma das principais características dos
orientais.
A PACIÊNCIA talvez seja a mais difícil das três atitudes que aprendi a
cultivar, ter paciência não é tarefa fácil, é um exercício diário, somos
impacientes por natureza. Vivemos em uma sociedade na qual a cultura imediatista
é difundida como correta e normal, talvez por isso, existam tantos profissionais
frustrados. Temos o hábito de querer tudo de imediato, às vezes na última hora.
Saímos de casa atrasados porque dormimos de mais, e quando chegamos na rua
queremos que o trânsito esteja livre para nós, como se fossemos únicos no
planeta, e o mundo girasse em nossa volta.
A falta de paciência é um mal severo, que mina nossas forças, levando-nos a
níveis mais altos de irritação, ansiedade e estresse. Cultivar a paciência não é
privilégio dos religiosos orientais, nós também podemos adquirir esta virtude,
mas para isto, é preciso observar os acontecimentos, e entender que cada coisa
tem seu tempo próprio, e nossa pressa pode colocar tudo a perder.
Qualquer ação ou projeto deve congregar estes três fatores primordiais, eles
se completam, e juntos garantem um caminho mais objetivo rumo ao sucesso
profissional e pessoal. 9. O livro “A Arte da
Guerra” de Sun Tzu fez muito sucesso no meio empresarial. Você acredita
que ele reflete bem a estratégia milenar oriental?
O General Sun Tzu, Viveu na China do século IV a.C., e foi um dos maiores
líderes do mundo antigo, comandando o exército real de Wu, e acumulando várias
vitórias. Seu famoso livro “A Arte da Guerra”, é muito mais do que um livro de
estratégia militar, ele é um arquivo filosófico, um relato detalhado de como a
visão oriental da vida, pode afetar a trajetória rumo ao sucesso, seja em
batalhas no front, ou nos negócios.
A aplicação dos princípios de Sun Tzu realmente pode fazer a diferença, Mao
Tse-Tung, foi um dos maiores estrategistas modernos, e fiel seguidor dos
princípios de Sun Tzu durante sua luta contra os chineses nacionalistas e os
japoneses. Grandes presidentes de corporações multinacionais atuais, também são
fieis seguidores dos princípios de Sun Tzu. Mas a obra do general chinês não é
única, ela é apenas uma série de apontamentos e aplicações dos fundamentos do
Tao Te Ching, que também é conhecido como o “livro do caminho e da virtude”,
talvez o mais importante e certamente um dos mais antigos compêndios chineses,
datando de aproximadamente 600 a.C. e escrito pelo sábio Lao Tzi, Também
conhecido como Lao Tse (Velho Mestre).
O Tao Te Ching não originou o Taoísmo como muitos acreditam, mas foi um dos
pilares que apoiaram a divulgação do pensamento baseado no TAO (Caminho), que
fundamenta segundo a visão chinesa, a base da existência de todas as coisas.
Como você perguntou, afirmo que o reflexo da estratégia oriental não pode ser
resumido em apenas um ou dois livros, estamos falando de uma cultura que aplica
princípios da estratégia em suas ações há pelo menos cinco mil anos, e todas
estas já estavam baseadas em fundamentos ainda mais antigos, por isso, continuo
a afirmar que a cultura oriental não será afetada pela globalização, pelo
contrário, ela será adaptada ao mundo moderno, e sempre terá como base, os
princípios que construíram sua filosofia e cultura.
Sun Tzu, foi apenas um dos seguidores dos ensinamentos do Tao Te Ching, e
assim como ele, vários outros líderes espalhados pelo oriente também adotaram os
princípios descritos neste livro. Mas muitos outros livros de estratégia
existem, e para conhecermos a fundo tal cultura, precisamos imergir com afinco
nesta filosofia tão diferente da que nos foi ensinada no ocidente.
Para encerrar a resposta, vou citar um dos provérbios de Lao Tzi que mais
gosto no Tao Te Ching.
Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido, Na busca do TAO,
todos os dias algo é deixado para trás.
E cada vez menos é feito até se atingir a perfeita não-ação. Quando nada é
feito, nada fica por fazer.
Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso. E não
interferindo. TAO TE CHING
10. Quais recursos sugere aos leitores para que conheçam
melhor a filosofia oriental e sua aplicação nos negócios?
Eu sempre acreditei que nada vale mais do que a experiência, por isso,
procuro conversar com muitas pessoas sobre suas vivências. Quando falamos de
filosofia oriental, a melhor forma de aprender e convivendo, conversando
com eles. A filosofia de vida esta intrínseca, é só vermos como eles comandam
suas vidas, suas famílias e seus negócios, e certamente aprenderemos muitas
lições.
Uma história atual que reúne todos aqueles princípios que citei
anteriormente, e que evidencia como podemos aprender com as experiências, é a do
empreendedor vietnamita Thai Quang Nghia que aos vinte um anos, pressionado pelo
regime comunista, fugiu de seu país rumo ao Brasil sem falar sequer uma palavra
de português, perseverando desde o começo, ele conseguiu juntar dinheiro devido
às suas habilidades comerciais.
Não vou detalhar sua jornada no Brasil, mas o resultado da visão deste
empreendedor oriental, foi a criação em 2003 de uma empresa que é destaque na
criação de calçados, roupas e acessórios desenvolvidos a partir de borracha
reciclada de pneu e tecidos – como jeans e lona de caminhão – reaproveitados e
tratados.
Sua empresa, a Goóc, destaca-se no Brasil pela originalidade de seus
produtos, que conseguem conciliar a criatividade atrelada a sustentabilidade
ambiental. Thai agarrou a causa ambiental para conscientizar seus consumidores,
e hoje sua fórmula de “criatividade + sustentabilidade” tem conquistado vários
países como França, Itália, Espanha, Portugal, Japão, Estados Unidos, Caribe,
Austrália, Arábia Saudita e países da América Latina A marca criada por Thai
cresceu cerca de 600% desde seu início, em 2003, possui cinco mil pontos de
vendas em todo o território nacional e suas exportações já representam hoje,
mais de 4% da produção da empresa.
Creio que esta é uma boa maneira de apreender com as experiências, este
empreendedor vindo do oriente, aplicou sua determinação e persistência e
talhou sua paciência, na busca de seus objetivos. Não sei se ele é um leitor de
Sun Tzu ou do Tao Te Ching, mas certamente, a filosofia de vida oriental está
embutida em suas atitudes que o guiaram rumo ao sucesso.
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