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25/06/2008 | Negócios
Filosofia Oriental nos Negócios - Fábio Azevedo
Fábio Azevedo


 

O empresário e consultor Fábio Azevedo nos fala sobre as características da cultura e filosofia oriental, como ela se aplica aos negócios e como podemos usar estes conceitos em nossa vida profissional.

Leia também os artigos de Fábio Azevedo no Portal O Gerente.

1. Quais são as principais características da cultura e filosofia oriental?

A cultura e a filosofia oriental sempre foram baseadas no estudo dos opostos (milenar escola yin yang), lidando sempre com oposições que se encontram em estados complementares, diferente da cultura ocidental, que visa fatores limitantes e baseados em uma lógica vinda dos estudos de Aristóteles, que tende ao particionamento. 
 
2. Como estas características são aplicadas pelos orientais nos negócios?

No oriente, praticamente tudo se baseia na cultura dos opostos, existe sempre a necessidade de entender como os objetos em estudo interagem e repercutem no meio que os cerca. Esta visão mais holística, que não exclui, consegue compreender o mundo como um todo, analisando melhor as conseqüências geradas no meio. Isso leva a uma melhor compreensão das críticas feitas ao comportamento ocidental, que tende a separar o pensamento da ação, isso não é aceito no mundo oriental, no qual quase sempre tende a elaborar suas estratégias com o pensamento e a ação, o planejamento e o implemento estão diretamente vinculados, são indivisíveis.
Essa visão pode até parecer um pouco confusa a princípio, alguns me perguntariam, como algo baseado em opostos pode trabalhar complementado-se?

Costumo dizer que, para compreender a lógica do pensamento oriental, é impreterível estudar sobre a influência da escola yin yang de pensamento, ela é a base, o cerne das ações no oriente, o objeto deve sempre estar integrado ao meio, e o meio deve sempre absorver o objeto, criando uma simbiose perfeita, que harmoniza e agrega. Para nós ocidentais que fomos educados em uma cultura baseada na lógica de Aristóteles, que tende ao particionamento, ou seja dividir para compreender, esta visão holística torna-se bem confusa no início. Compreender o que o oriental  entende como oposto e como complementar é a base para navegar por este universo tão diferente do nosso, e que tanto assusta a comunidade ocidental.

3. O que os ocidentais podem aprender do estilo oriental de fazer negócios?

Na escola oriental, baseada no estudo do yin e yang, nunca se separa um objeto para conhecê-lo, seja na vida ou nos negócios, deve-se sempre entender a circunstância do todo e como ele se integra. Esta visão particularmente vinda do oriente, afeta o todo no qual o oriental se relaciona, causando estranheza desde os tempos mais remotos.

Se formos detalhar ainda mais, podemos perceber que falando de planejamento no mundo ocidental, planejar significa separar o alvo de estudo, dividi-lo em várias partes, para que assim se possa compreender melhor, e partindo disto elaborar um plano de ação, uma estratégia. No oriente, dividir  o alvo de estudo se torna desnecessário quando se entende como tudo se conecta, a forma como o objeto de estudo interage com o meio, como tudo se inter-relaciona.

Concordo com pontos da visão ocidental, que de certa forma,  funcionam e tem seus méritos, o que costumo defender, é justamente a ampliação desta visão. O oriente esta cada vez mais acessível, e já está comprovado que a forma que eles fazem negócios e montam suas estratégias funcionam, por isso, devemos aprender a mesclar estas competências, e desenvolver técnicas de ação que analisem mais o todo e compreendam melhor a influência do objeto no meio aplicado.

4. Quais estratégias e comportamentos são mais adequados para negociar com empresas e profissionais orientais?

Não acredito em nenhuma fórmula, como em qualquer estratégia, o nosso guia de ações deve em primeiro lugar analisar os hábitos daqueles com quem vamos realizar negócios, essa interação é fundamental, conhecer sua cultura, seus hábitos, em que suas crenças são fundamentadas. Estes são  os primeiros passos para negociar bem, o resto é feeling, como em qualquer outra negociação. Mesmo no oriente, ninguém é igual a ninguém, cada situação é única!

5.  Qual é a melhor forma de evitar um “choque cultural” nos negócios, que pode muitas vezes destruir uma oportunidade?

Como respondi anteriormente, a melhor forma é conhecer bem a pessoa e ou grupo que vamos nos relacionar, e conhecer seus hábitos e sua cultura é sem dúvida o primeiro passo.

Fazer negócio, é dividir objetivos, se você não compartilha do mesmo raciocínio, dificilmente conseguirá interagir para gerar um acordo que satisfaça ambos os lados.
 
6. Com o avanço da globalização, as diferenças culturais entre ocidentais e orientais não tende a diminuir?   Não acontecerá o mesmo com a filosofia de negócios?

Sim e não! Creio que a globalização tende realmente a somar culturas, mas quando falamos do oriente, falamos de culturas milenares, que trabalham seus objetivos com prazos de 100, 300 ou 500 anos, e o ocidente não compartilha esta visão. A cultura oriental é baseada em fatores que não fazem parte de nossas raízes, por isso, concordo que com o tempo, muito será aprendido por ambos os lados, mas é muito mais fácil que eles absorvam nossa forma de pensar e agir, do que nós absorvamos a deles.

Se formos a fundo, veremos que grandes impérios como Toyota, Hyundai, Tata, Honda e tantos outros, adaptaram-se com maestria ao pensamento ocidental, e ainda são em muitos pontos, uma incógnita. Sua forma de agir e pensar, principalmente quando falamos de negócios, é alvo de estudos e análises profundas, que na maioria das vezes mostra que o que faz a diferença, esta muito além do que imaginamos em nossa visão regularmente simplista. Como citei antes, tendemos a separar para compreender, e os orientais sempre analisam o todo, e como ele faz parte do processo global.
 
7. As empresas orientais estão cada vez mais presentes no mercado brasileiro.  Que cuidados um profissional deve ter ao começar a trabalhar com chefes orientais?

Em primeiro lugar, seja você mesmo, não vou enumerar aqui um guia, pois creio que isto é um pouco complicado. Devemos ter os mesmos cuidados que teríamos em qualquer outra empresa, ter um chefe oriental não é um dragão de sete cabeças. Agir com disciplina, educação, parcimônia, arrojo, dinamismo, é fundamental, mas continuo a defender que, para você conviver com uma outra cultura, é imprescindível entender o que ela valoriza, por isso, se você tem um chefe japonês, procure entender quais são suas origens, se ele é um tradicionalista, quais são suas diretrizes profissionais, isso vale para qualquer outra ascendência, chinesa, indiana, coreana, não importa, na verdade isso vale para qualquer cultura, procure entender quais são os valores que motivam aquele profissional, assim você poderá fazer parte do meio, e não desagregará o todo.

8. Como você aplica a filosofia oriental em seus próprios negócios?

Minha vida sempre esteve ligada diretamente ao modo de pensar oriental, fosse por meio das artes marciais, ou dos estudos filosóficos de religiões como o Budismo, o Taoísmo e o Confucionismo. Desde muito cedo, eu mergulhava nos ensinamentos que assimilava dos livros, e que também recebia de meus mestres. Atualmente costumo seguir três princípios e posso dizer que eles regem minha vida, são eles, DETERMINAÇÃO, PERSISTÊNCIA E PACIÊNCIA, estes três pontos tornaram-se tão importantes para mim, que os aplico em tudo o que faço.

Estes princípios mudaram tanto minha vida, que em breve, falarei um pouco mais do que aprendi a respeito deles em um livro que estou terminando, e pretendo publicar no fim deste ano.

Neste conjunto de características a DETERMINAÇÃO é o principal combustível da vida, sem ela não alcançamos nossos objetivos. No mundo dos negócios, ser determinado é a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Vi por muitas vezes profissionais que depois de várias respostas de compra negativas, desistiam de buscar o sim. A vida é para os fortes, e no mundo dos negócios, somente sobrevive aquele que busca seus objetivos com determinação e positivismo. Ter uma visão positiva do futuro, faz parte dos critérios para se construir uma empresa de sucesso. Nossa mente é poderosa, e afeta o nosso ambiente de convivência, uma personalidade determinada e positivista, contagia todos ao redor, produzindo um ecossistema laboral saudável e propenso a grandes negócios.

A PERSISTÊNCIA é fundamental, sem ela, de nada vale a determinação, esta atitude faz a diferença na vida e no mundo dos negócios. Como falei antes, a persistência é a segunda característica que pauta minhas atitudes e é preciso aprender a cultiva-la, a persistência deve tornar-se um hábito em tudo que fazemos na nossa vida. Quem de nós nunca conheceu alguém que começou uma faculdade e não terminou, ou mesmo um curso de idiomas, ou uma academia e sempre desistem antes de alcançar o objetivo.

Por isso, devemos dar atenção especial a esta atitude, pois a persistência e capaz de transformar nossa vida, e esta é uma das principais características dos orientais. 

A PACIÊNCIA talvez seja a mais difícil das três atitudes que aprendi a cultivar, ter paciência não é tarefa fácil, é um exercício diário, somos impacientes por natureza. Vivemos em uma sociedade na qual a cultura imediatista é difundida como correta e normal, talvez por isso, existam tantos profissionais frustrados. Temos o hábito de querer tudo de imediato, às vezes na última hora. Saímos de casa atrasados porque dormimos de mais, e quando chegamos na rua queremos que o trânsito esteja livre para nós, como se fossemos únicos no planeta, e o mundo girasse em nossa volta.

A falta de paciência é um mal severo, que mina nossas forças, levando-nos a níveis mais altos de irritação, ansiedade e estresse. Cultivar a paciência não é privilégio dos religiosos orientais, nós também podemos adquirir esta virtude, mas para isto, é preciso observar os acontecimentos, e entender que cada coisa tem seu tempo próprio, e nossa pressa pode colocar tudo a perder.

Qualquer ação ou projeto deve congregar estes três fatores primordiais, eles se completam, e juntos garantem um caminho mais objetivo rumo ao sucesso profissional e pessoal.
 
9. O livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu fez muito sucesso no meio empresarial.  Você acredita que ele reflete bem a estratégia milenar oriental?

O General Sun Tzu, Viveu na China do século IV a.C., e foi um dos maiores líderes do mundo antigo, comandando o exército real de Wu, e acumulando várias vitórias. Seu famoso livro “A Arte da Guerra”, é muito mais do que um livro de estratégia militar, ele é um arquivo filosófico, um relato detalhado de como a visão oriental da vida, pode afetar a trajetória rumo ao sucesso, seja em batalhas no front, ou nos negócios.

A aplicação dos princípios de Sun Tzu realmente pode fazer a diferença, Mao Tse-Tung, foi um dos maiores estrategistas modernos, e fiel seguidor dos princípios de Sun Tzu durante sua luta contra os chineses nacionalistas e os japoneses. Grandes presidentes de corporações multinacionais atuais, também são fieis seguidores dos princípios de Sun Tzu. Mas a obra do general chinês não é única, ela é apenas uma série de apontamentos e aplicações dos fundamentos do Tao Te Ching, que também é conhecido como o “livro do caminho e da virtude”, talvez o mais importante e certamente um dos mais antigos compêndios chineses, datando de aproximadamente 600 a.C. e escrito pelo sábio Lao Tzi, Também conhecido como Lao Tse (Velho Mestre).

O Tao Te Ching não originou o Taoísmo como muitos acreditam, mas foi um dos pilares que apoiaram a divulgação do pensamento baseado no TAO (Caminho), que fundamenta segundo a visão chinesa, a base da existência de todas as coisas.

Como você perguntou, afirmo que o reflexo da estratégia oriental não pode ser resumido em apenas um ou dois livros, estamos falando de uma cultura que aplica princípios da estratégia em suas ações há pelo menos cinco mil anos, e todas estas já estavam baseadas em fundamentos ainda mais antigos, por isso, continuo a afirmar que a cultura oriental não será afetada pela globalização, pelo contrário, ela será adaptada ao mundo moderno, e sempre terá como base, os princípios que construíram sua filosofia e cultura.

Sun Tzu, foi apenas um dos seguidores dos ensinamentos do Tao Te Ching, e assim como ele, vários outros líderes espalhados pelo oriente também adotaram os princípios descritos neste livro. Mas muitos outros livros de estratégia existem, e para conhecermos a fundo tal cultura, precisamos imergir com afinco nesta filosofia tão diferente da que nos foi ensinada no ocidente.

Para encerrar a resposta, vou citar um dos provérbios de Lao Tzi que mais gosto no  Tao Te Ching.

Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,
Na busca do TAO, todos os dias algo é deixado para trás.

E cada vez menos é feito até se atingir a perfeita não-ação.
Quando nada é feito, nada fica por fazer.

Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso.
E não interferindo.
TAO TE CHING

10.   Quais recursos sugere aos leitores para que conheçam melhor a filosofia oriental e sua aplicação nos negócios?

Eu sempre acreditei que nada vale mais do que a experiência, por isso, procuro conversar com muitas pessoas sobre suas vivências. Quando falamos de filosofia oriental, a melhor forma de aprender e convivendo,  conversando com eles. A filosofia de vida esta intrínseca, é só vermos como eles comandam suas vidas, suas famílias e seus negócios, e certamente aprenderemos muitas lições.

Uma história atual que reúne todos aqueles princípios que citei anteriormente, e que evidencia como podemos aprender com as experiências, é a do empreendedor vietnamita Thai Quang Nghia que aos vinte um anos, pressionado pelo regime comunista, fugiu de seu país rumo ao Brasil sem falar sequer uma palavra de português, perseverando desde o começo, ele conseguiu juntar dinheiro devido às suas habilidades comerciais.

Não vou detalhar sua jornada no Brasil, mas o resultado da visão deste empreendedor oriental, foi a criação em 2003 de uma empresa que é destaque na criação de calçados, roupas e acessórios desenvolvidos a partir de borracha reciclada de pneu e tecidos – como jeans e lona de caminhão – reaproveitados e tratados.

Sua empresa, a Goóc, destaca-se no Brasil pela originalidade de seus produtos, que conseguem conciliar a criatividade atrelada a sustentabilidade ambiental. Thai agarrou a causa ambiental para conscientizar seus consumidores, e hoje sua fórmula de “criatividade + sustentabilidade” tem conquistado vários países como França, Itália, Espanha, Portugal, Japão, Estados Unidos, Caribe, Austrália, Arábia Saudita e países da América Latina
A marca criada por Thai cresceu cerca de 600% desde seu início, em 2003, possui cinco mil pontos de vendas em todo o território nacional e suas exportações já representam hoje, mais de 4% da produção da empresa.

Creio que esta é uma boa maneira de apreender com as experiências, este empreendedor vindo do oriente, aplicou sua determinação e persistência  e talhou sua paciência, na busca de seus objetivos. Não sei se ele é um leitor de Sun Tzu ou do Tao Te Ching, mas certamente, a filosofia de vida oriental está embutida em suas atitudes que o guiaram rumo ao sucesso.

 

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