Magnificamente
dirigido por
Costa-Gavras, "O
Corte" (2005) – no
original, "Le
Couperet" – retrata,
de forma
absolutamente
precisa e impiedosa,
o impacto do
Desemprego sobre a
vida emocional,
familiar e social de
um ex-Executivo da
indústria de papel,
o Sr. Bruno Davert –
brilhantemente
interpretado pelo
ator José Garcia.
O que mais
impressiona em "O
Corte" é como ele
consegue retratar
perfeitamente o
drama hoje vivido
por milhões de
pessoas no mundo,
que é o do
Desemprego
globalizado e
desesperançado. Está
tudo ali: a gradual
perda da identidade
e da auto-estima, a
corrosão dos
valores, o efeito
desagregador na
estrutura familiar,
a preocupação em
manter as
"aparências" e o
lento e inexorável
resvalar dos
personagens para a
insanidade e para o
desespero. Mais
ainda, ao longo do
filme, por diversos
momentos, somos
instigados a
refletir sobre
questões
absolutamente
presentes nos dias
de hoje, como, por
exemplo, o fim do
contrato de
trabalho, a
impessoalidade dos
processos seletivos,
e a atmosfera de
altíssima
competitividade
reinante tanto
dentro como fora das
organizações
modernas.
Logo nos primeiros
minutos somos
apresentados ao pano
de fundo dentro do
qual se desenrola a
trama: após 15 anos
de contribuições
produtivas para a
Empresa onde
trabalhava, o
personagem Bruno
Davert é demitido
junto com outros
seiscentos
funcionários durante
uma reestruturação
da companhia – o
primeiro dos
"Cortes" a que o
título se refere.
Após dois anos e
meio de desemprego,
nos quais ele
cumpre,
devotadamente, o
ritual de enviar
currículos e
comparecer a
entrevistas
aparentemente
sem-fim, ele tem uma
idéia no mínimo
macabra: eliminar os
concorrentes com
currículo tão bom ou
melhor que o seu,
"facilitando", desta
forma bem pouco
usual, a sua
contratação no cargo
tão sonhado. O que
acontece daí por
diante é uma
seqüência de
acontecimentos que
oscilam entre o
drama e o suspense,
com pitadas
ocasionais de humor
negro que servem
apenas para
aprofundar ainda
mais o clima de
tensão presente em
todo o filme.
Uma característica
singular deste filme
e que, com toda a
certeza,
impressionará o
espectador mais
atento, é o incrível
cuidado com que o
Diretor coloca, aqui
e ali, referências,
por vezes bastante
sutis, àquilo que se
passa no contexto
psicológico e social
dos personagens. Os
sinais de decadência
financeira da
família Davert – a
perda da TV por
assinatura, a falta
de mantimentos
básicos, etc. – se
encontram presentes
no diálogo dos
personagens – sempre
com um toque de mudo
desespero. Outro
exemplo, mais sutil,
é que, ao longo de
todo o filme, o
personagem principal
se vê como que
"perseguido" por
imagens
publicitárias onde
são retratados
diversos itens de
consumo de luxo.
Estas surgem em
momentos-chave da
trama e servem para
atormentar ainda
mais o nosso
protagonista,
lembrando-o, a todo
o momento, do mundo
– o mundo
corporativo – do
qual ele já fez
parte e para o qual
anseia tão
desesperadamente
retornar.
Trata-se de um filme
que poderá, a bem da
verdade, chocar
alguns expectadores
mais preocupados com
a forma do que com o
conteúdo, mas que,
com toda a certeza,
acrescentará em
muito a todos
aqueles que lidam
direta ou
indiretamente com
Gestão de Pessoas.